Com a
situação financeira comprometida por corrupção, loteamento político de cargos e
má gestão, empresas do governo federal recorrem à dispensa de empregados para
tentar reduzir custos
Correios
pretendem cortar até 25 mil funcionários, após registrar perdas de R$ 4 bilhões
nos últimos dois anos.
Os
prejuízos acumulados pelas empresas estatais nos últimos anos serão pagos com a
demissão de milhares de empregados. Os sucessivos casos de corrupção, o
loteamento político de cargos e investimentos desastrosos em projetos sem
rentabilidade serão cobertos com a redução de gastos com pessoal. Nos Correios,
por exemplo, os executivos já estudam dispensar até 25 mil trabalhadores para
fechar as contas no azul em 2017, após acumular um rombo de R$ 4 bilhões nos
últimos dois anos. A possibilidade foi antecipada pelo Correio, em janeiro,
quando a Vice-Presidência de Recursos Humanos solicitou um parecer ao
Departamento Jurídico sobre a possibilidade de demissão motivada.
Empregados de empresas públicas não podem ser demitidos sem justa causa; é
necessário que haja motivação. Além disso, é necessário apresentar os critérios
para os cortes de pessoal e verificar se os serviços prestados não serão
afetados. Pela tese defendida pelo Departamento Jurídico dos Correios, a
dispensa seria motivada por questões técnicas, econômicas e financeiras.
Conforme
o memorando enviado pela Vice-Presidência de RH, a medida seria adotada caso as
ações em curso não sejam suficientes para equilibrar as contas da estatal. O
parecer ainda leva em conta dados apresentados pela Vice-Presidência de
Finanças e Controle Interno, que mostram um crescimento de R$ 3 bilhões, em
2006, para R$ 7,5 bilhões, em 2015, na folha de pagamento da empresa. Com isso,
as despesas com pessoal saltaram de 49% para 62% dos gastos totais da estatal.
No mesmo período, o número de empregados passou de 107 mil para 118 mil. Mas o
“tráfego de objetos” caiu de 8,6 bilhões para 8,2 bilhões. Além disso, o nível
de produtividade diminuiu de 80 para 70 objetos por trabalhador.
No caso
na Telebras, os problemas são ainda maiores. A estatal, ressuscitada pelo
governo Dilma Rousseff, fechou 2016 com patrimônio negativo R$ 500,1 milhões,
mais que o dobro dos R$ 218,8 bilhões registrado no ano anterior. Foi um
aumento de 128,5% num buraco que não se sabe onde vai parar. O patrimônio
negativo da Telebras cresce por causa dos consecutivos prejuízos acumulados,
que saltaram, no ano passado, de R$ 498,7 milhões para R$ 769,6 milhões.
Os gastos
com pessoal cresceram 39,5% entre 2015 e 2016, com a fatura pulando de R$ 50,7
milhões para R$ 70,8 milhões. No total, as despesas operacionais da Telebras
subiram 18% no ano passado, totalizando R$ 195,2 milhões — sem qualquer
justificativa plausível para uma empresa que havia sido praticamente fechada.
No ano passado, o prejuízo foi de R$ 270,9 milhões contra R$ 235,6 milhões em
2015.
A lista
de empresas no vermelho deve ser ainda maior, mas a demora na divulgação das
informações mantém os dados escondidos. Segundo o Ministério do Planejamento,
as estatais têm até 30 de maio para enviar à pasta os demonstrativos
financeiros do ano passado. Antes disso, é impossível saber quantas das 152
companhias federais tiveram prejuízo ou não.
Outra
empresa que se mantém deficitária é a Petrobras, vítima do esquema de corrupção
investigado pela Operação Lava-Jato. A petroleira teve prejuízo líquido de R$
14,8 bilhões em 2016, o terceiro consecutivo. Apesar dos números ruins, a
companhia reduziu o endividamento em 20%. A dívida líquida, no fim de 2016,
estava em R$ 314,12 bilhões, ante R$ 392 bilhões em 2015. Em dólares, o total
de débitos recuou 4%, passando de US$ 100,4 bilhões para US$ 96,38 bilhões.
O
presidente da Petrobras, Pedro Parente, reconduzido ontem ao cargo até março de
2019, afirmou no começo do ano que a empresa manterá disciplina e
acompanhamento mensal de resultados para melhorar o balanço, mas sem reduzir a
meta de produção. Segundo ele, o objetivo é reduzir os custos operacionais em
18% em relação ao previsto no cenário básico, além de implantar novos sistemas
de gestão. A estatal está concluindo o segundo programa de demissão voluntária,
totalizando a adesão de 19 mil colaboradores, o equivalente a 20% do quadro de
funcionários diretos da companhia.
Os fundos de pensão registraram
deficit de R$ 71,7 bilhões em 2016, informou a Associação Brasileira das
Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp). Pelo menos 80
fundações tiveram resultado negativo em 205 planos de benefícios, uma queda em
relação a 2015, quando 92 delas apresentaram rombo de R$ 76,7 bilhões. A Abrapp
destacou que 88% do deficit do ano passado se refere ao resultado de 10 planos
de benefícios. Por outro lado, o número de fundações com superavit passou de
127, em 2015, para 138, em 2016. O resultado positivo delas subiu de R$ 13,9
bilhões para R$ 18,2 bilhões.
O executivo
Fábio Schvartsman, atual presidente da Klabin, será o novo presidente da Vale a
partir de maio, substituindo Murilo Ferreira. Graduado e pós-graduado em
Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo e pós-graduado em
Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, Schvartsman chegou ao
comando da Labinasal em fevereiro de 2011, após passar boa parte da vida
profissional no grupo Ultra, onde foi responsável pela abertura de capital da
holding. Ele foi selecionado pela empresa de recrutamento Spencer Stuart e
recebeu o aval dos presidentes do Banco do Brasil, Paulo Rogério Caffarelli, e
do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, além do presidente da República, Michel
Temer.
Rombos
sucessivos de estatais prejudicam esforço do governo para recuperar contas
públicas
» Entre
2015 e 2016, o rombo na Telebras mais que dobrou. O patrimônio líquido negativo
saltou de R$ 218,8 milhões para R$ 500,1 milhões, uma piora de 128,5%
» O
prejuízo acumulado saltou de R$ 498,7 milhões para R$ 769,6 milhões
» O gasto
com pessoal cresceu 39,5%, passou de R$ 50,7 milhões para R$ 70,8 milhões
Correios
» A
empresa acumulou rombo de R$ 4 bilhões nos últimos dois anos e estuda dispensar
até 25 mil empregados por meio da demissão motivada
» Pela
tese defendida pelo Departamento Jurídico da estatal, essa dispensa seria
motivada por questões técnicas, econômicas e financeiras
» Será
necessário apresentar previamente os critérios para os cortes de pessoal e se
os serviços prestados não serão afetados
Petrobras
» A
Petrobras teve prejuízo líquido de
R$ 14,8
bilhões em 2016, o terceiro ano consecutivo de resultados negativos
» Em
2015, a estatal registrou prejuízo recorde de R$ 34,8 bilhões e em 2014, as
perdas somaram R$ 21,6 bilhões
» Em comunicado, após a
divulgação do balanço, a Petrobras atribuiu o novo prejuízo à reavaliação “de
ativos e de investimentos, no total de R$ 20,9 bilhões”
(Antonio Temóteo/CB)
