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À Justiça,
Lemos disse que “sofreu novo abalo psicológico ao reviver os fatos” contra seu
filho quando foi procurado por outros veículos de imprensa para repercutir a
entrevista concedida por Suzy Oliveira. A entrevista exibida no programa
dominical abordava a situação de pessoas transgênero no sistema penitenciário
brasileiro, e Suzy foi uma das entrevistadas. O ápice do encontro entre Drauzio
e Suzy ocorreu quando o entrevistador perguntou há quanto tempo a presidiária
não recebia uma visita na cadeia -ela cumpre pena numa unidade prisional de Guarulhos
(Grande SP).
Oliveira respondeu: “Oito
anos, sete anos”. O médico então disse: “Solidão, né, minha filha”, e deu um
abraço na entrevistada. A troca de afeto entre Drauzio, que é voluntário no
sistema penitenciário há 32 anos, e a detenta gerou comoção na internet, que
promoveu uma mobilização para o envio de cartas e presentes para a travesti.
A própria Secretaria de
Administração Penitenciária do governo de João Doria (PSDB) ajudou na campanha,
e a cela de Suzy acabou lotada com cartas, Bíblias, livros, chocolates e
maquiagens, entre outros itens. A situação só se inverteu na semana seguinte à
exibição da entrevista quando sites e contas em redes sociais, muitos deles
encabeçados por personalidades conservadoras e bolsonaristas, passaram a
divulgar os crimes cometidos pela detenta que não haviam sido informados na
entrevista conduzida pelo médico.
O presidente Jair Bolsonaro
(sem partido) declarou em uma rede social na ocasião que “enquanto a Globo
tratava um criminoso como vítima, omitia os crimes por ele praticados”. Na
mesma postagem, Bolsonaro enalteceu “a internet livre” por disseminar a razão
do crime e lamentou o veto à prisão perpétua na Constituição.
A juíza Regina de Oliveira
Marques, da 5ª Vara Cível do Foro Regional II de Santo Amaro, na capital
paulista, a responsável pela sentença, tratou Suzy com pronomes masculinos em
seu despacho, apesar de redigir o nome social da detenta duas vezes.
Para a magistrada, Varella e
a TV Globo causaram constrangimentos ao pai do garoto assassinado por Suzy ao
“veicular matéria que minimizava a condição de presidiário do assassino do
filho do autor, menor, sem atentar ao dever de veracidade, ou seja, a
investigação do porquê da prisão, com nítido abuso de direito de informação, já
que não adotaram a diligência necessária na apuração dos fatos, tampouco a
cautela que é recomendável”.
A juíza disse também que não
“há que se falar em mera opinião sobre o caso emitida na matéria, mas sim,
afastamento de ética com erro inescusável ao tentar justificar a prisão, por
sua sexualidade, do assassino que passou a receber atenções do público e o
autor [da ação], por outro lado, sendo procurado por outros meios para
pretensas entrevistas acerca da matéria”.
A maioria das críticas
contra a entrevista não ocorreu pelo abraço dado pelo médico na travesti, mas
pela omissão na reportagem do crime cometido por ela, o que teria gerado
simpatia do público pela detenta, fato reforçado pela magistrada que julgou o
caso.
As defesas de Varella e da
TV Globo argumentaram nos autos do processo que a reportagem tinha cunho
jornalístico e de interesse coletivo sendo que a entrevistada narrou os fatos
(situação dos presidiários) “sem conhecimento das práticas delituosas
cometidas, restando que jamais teria mencionado o nome da vítima ou do autor,
restando publicadas desculpas e esclarecimentos”.
Dias depois da veiculação da
entrevista, o médico Drauzio Varella emitiu nota em suas redes sociais em que
disse que não perguntou os crimes cometidos pelas entrevistadas porque era
médico, não juiz. “Há mais de 30 anos, frequento presídios, onde trato da saúde
de detentos e detentas. Em todos os lugares em que pratico a medicina, seja no
meu consultório ou nas penitenciárias, não pergunto sobre o que meus pacientes
possam ter feito de errado. Sigo essa conduta para que meu julgamento pessoal
não me impeça de cumprir o juramento que fiz ao me tornar médico. No meu
trabalho na televisão, sigo os mesmos princípios. No caso da reportagem
veiculada pelo Fantástico, não perguntei nada a respeito dos delitos cometidos
pelas entrevistas. Sou médico, não juiz.”
Mas, para a juíza, a
divulgação de explicações e pedidos de desculpas pelos réus não afastam os
fatos. “Ao contrário, somente corroboram com o entendimento de que os
requeridos reconheceram a negligência praticada e as consequências incidentes
no autor [da ação]”, escreveu a magistrada.
Procurados nesta
quarta-feira (23) para comentar a sentença, a comunicação da TV Globo e o
médico Drauzio Varella disseram à Folha de S.Paulo que não se manifestariam.
(Folhapress) www.jornalaguaslindas.com.br
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