Sete pessoas de uma mesma família, entre elas 4 crianças, morreram em um naufrágio no rio
Eric Zambon
eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br
Um naufrágio de canoa no Lago Corumbá III, a 30 km de Luziânia (GO), na Região Metropolitana do Distrito Federal, vitimou 11 moradores da QR 517 de Santa Maria, por volta das 15h do último sábado. Sete pessoas, entre elas quatro crianças e uma adolescente, morreram, enquanto outras quatro sobreviveram. Todos pertenciam à mesma família, à exceção do piloto da embarcação, identificado como um amigo deles.
De acordo com o capitão Juliano de Barros, do 5º Batalhão Bombeiro Militar de Luziânia, a imprudência foi uma das causas do acidente. “Um barco que caberia, no máximo, cinco pessoas, estava superlotado com mais que o dobro da capacidade”, revelou. Ele também apontou para a ausência de coletes salva-vidas para cada tripulante – apenas um menino de seis anos estava equipado – e para a falta de arrais do condutor da embarcação, Januário Silva dos Santos, de 53 anos.
Vestígios de bebida
“Encontramos também vestígios de bebida alcoólica e aparentemente só duas pessoas sabiam nadar”, complementou o capitão. Apesar da constatação, o piloto fez o teste do bafômetro após o ocorrido e não foi encontrado álcool em excesso em seu sangue. Januário foi ouvido pela polícia de Luziânia e o caso deve ser repassado à Delegacia Estadual de Investigações de Homicídios (DIH).
A “fatalidade”
Segundo o Corpo de Bombeiros, Januário relatou que uma das pessoas que morreu, Rúbio Ribeiro da Silva, de 27 anos, começou a brincar de jogar água sobrinha, a adolescente Sara, de 16 anos, também morta no acidente. Ela teria se irritado, pois estaria de “chapinha” no cabelo e, num ato impulsivo, teria se levantado. Nesse instante, segundo especulam os bombeiros, a embarcação deve ter sacudido e, com o excesso de peso, virado.
O condutor Januário e Sandro Vieira dos Santos, de 31 anos, tinham noções de natação e conseguiram chegar à borda. O pequeno Pedro Henrique Ribeiro da Silva, de seis anos, era o único com colete salva-vidas e boiou. Sua mãe, Joseane Rodrigues da Silva, de 24 anos, se agarrou ao menino e também conseguiu flutuar com ele até área segura.
Na margem do local, parentes viram tudo
Familiares da vítima acompanhavam tudo na borda, mas não puderam fazer nada, pois ninguém sabia nadar. “Segundo me contaram, os parentes da margem levaram os sobreviventes embora ao mesmo tempo que chamavam o socorro”, contou o amigo da família Paulo Renan de Oliveira. No local não há recepção de sinal de celular.
Antes de voltarem com o socorro, porém, o corpo de Arthur Silva Baliza, de cinco anos, emergiu mais próximo da borda e o garoto foi tirado da água por familiares que permaneceram à margem. Eles o levaram ao Hospital Regional de Luziânia, mas o menino teria chegado já sem vida. As outras vítimas que ainda estavam na água sumiram na curva do horizonte e os familiares não mais os viram.
O pai de Arthur, Raimundo Baliza, de 30 anos, que não morava com ele, chegou ao local e participou das buscas noturnas. “Eles planejavam essa viagem há uma semana. Já tinham vindo outras vezes, mas nunca entrado na água”, disse.
Local de difícil acesso
O rio onde ocorreu o acidente, no Corumbá III, a 30km de Luziânia (GO) é de dificíl acesso e os bombeiros só chegaram mais de duas horas após o naufrágio. Com o dia escurecendo, os mergulhos tiveram de ser interrompidos e a operação, intitulada de “Lágrima”, foi adiada para a manhã seguinte. Às 10h de ontem, o corpo de Ane Gabriely da Silva, de quatro anos, foi o primeiro a ser encontrado, a cerca de 40 metros da margem e a quase 18 metros de profundidade. Logo em seguida, os outros cinco corpos também foram localizados num ponto próximo.
Amarrados à borda, os seis corpos embalados em sacos cinzentos flutuavam ao sabor das marolas, ao lado do posto provisório de comando montado pelo Corpo de Bombeiros da cidade metropolitana, ainda no sábado. Por volta das 14h de ontem, Edir Silva de Souza ajoelhou-se às margens do rio para orar. “A reza foi uma prece por conforto para a família daquelas vítimas”, disse a senhora.
Família querida
E conforto é tudo o que Perpétua precisa no momento. Matriarca da família vitimada, ela perdeu os quatro netos, dois filhos e o sobrinho, que moravam com ela em Santa Maria. Na tarde de ontem, uma comoção de vizinhos e amigos foi à residência prestar condolências e oferecer apoio. Em choque, a “Dona Peta”, como é carinhosamente conhecida, precisou de ajuda até para andar e ingerir água.
Paulo Renan, que se tornou mais íntimo da família há cerca de um ano e também ajudou nas buscas pela madrugada, lamentou o ocorrido. “Quando fomos para lá, de noite, só os amigos e os parentes, ainda tínhamos esperança de encontrar todos”, revelou. “Arrancamos um farol de milha e conseguimos uma lancha emprestada para procurar pelos desaparecidos. Pensamos que eles estivessem desmaiados na beira do rio”, contou.
Ele também cobrou que o caso seja investigado, pois, para ele, houve falha humana. “Não havia condições de segurança para todos estarem naquele barco”, criticou. Renan lamentou mais pelo fato de a família ser muito querida nas redondezas.
Mortos serão trazidos para o DF
Ao todo, 15 homens do Corpo de Bombeiros de Luziânia foram mobilizados para a operação, todos mergulhadores de resgate. Alguns começaram os trabalhos no sábado e retomaram as atividades por volta das 8h de ontem, com condições mais favoráveis de busca.
A madrugada foi de vigília intensa para Paulo Renan, Raimundo e outros cinco parentes e amigos dos mortos, que ainda se agarravam à possibilidade de reencontrar todos vivos. “Meu filho adorava esse lugar”, recordou-se, com pesar, Raimundo. Sem dormir, ele acompanhou o salvamento dos corpos pelos Bombeiros. Os cadáveres foram embalados para preservação e aguardaram quase até o fim da tarde de ontem pela chegada do

Instituto Médico Legal (IML). Todos os corpos foram identificados ainda na noite de ontem e devem ser transferidos para o DF, onde serão enterrados.
Raimundo era pai biológico apenas de Arthur, mas foi de criação também de Jayne Vitória Meneses e Davy da Silva Meneses, de 10 e 11 anos, respectivamente. Ele mora no P Sul, separado dos filhos, e ficou sabendo do ocorrido por meio de parentes das vítimas.
Perdas
Paulo Renan se tornou colega da família há cerca de um ano e se comoveu com a situação, se oferecendo para ajudar nas buscas. Ele relatou que Rúbio, um dos mortos, frequentava sua casa e era um amigo querido. “É uma perda irreparável”, disse.
Bombeiro faz alerta sobre riscos de rios
O tenente-coronel Adval Dias Mateus, do 5º Batalhão Bombeiro Militar de Luziânia, aproveitou a tragédia para fazer um alerta a quem pretende curtir o Carnaval próximo à água. “Existe essa preocupação com a segurança de banhistas e com quem anda de barco, pois muitas vezes eles procuram lagos, rios e se embriagam”, explicitou.
Segundo Adval, o acidente de sábado é o quarto registrado em Corumbá III somente este ano e demonstra que a beleza não apenas do Rio Corumbá, mas de todas as bacias d’água da região, devem ser apreciadas e usufruídas com cuidado. “Depois de beber, algumas pessoas ficam valentes e não avaliam os riscos de mergulhar ou andar em um barco”, apontou.
Preocupação
O tenente-coronel ainda afirmou que a tomada de medidas consideradas básicas de segurança poderia ter prevenido a dor de dona Peta e de todos os familiares. “Se o condutor tivesse arrais, ele poderia ter a perícia para entrar na água nessa situação ou ajudar no salvamento dos outros. Tanto é que uma criança com colete não apenas se salvou como ajudou no resgate da mãe”, concluiu.
A senhora Edir, que fez a oração à beira do rio, voltou para sua casa, no condomínio Cadinheiro dos Carvalhos, banhado pelo rio Corumbá III, silenciosamente. Apesar de não ter parentesco com as vítimas, se compadeceu daqueles que foram algozes da imprudência nos limites de sua terra. As sete mortes deste fim de semana devem servir de aviso. Que a velhinha não tenha que rezar desta maneira novamente, e que famílias não se destruam por besteira.
Fonte: Da redação do Jornal de Brasília