Reintrodução do
animal aconteceu no interior da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais
Brasília (04/04/17) – Após um período de adaptação de aproximadamente cinco
meses na base do Instituto Chico Mendes em Porto de Pedras (AL), Diogo foi
finalmente devolvido à natureza. O peixe-boi marinho de seis anos de idade, 314
kg e 2,5 metros deixou seus companheiros de cativeiro, Ive e Raimundo, e ganhou
as águas do rio Tatuamunha, localizado no interior da Área de
Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais – unidade de
conservação administrada pelo ICMBio entre os litorais de Pernambuco e Alagoas.
A reintrodução de Diogo aconteceu na última quarta-feira (29) e contou com a
presença de 12 jornalistas de diversas partes do país (clique aqui e saiba mais sobre a visita dos profissionais de
comunicação à APA Costa dos Corais). Essa atividade faz parte das ações do
Programa Peixe-Boi, coordenado pelo Centro Nacional de
Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene/ICMBio),
com apoio da Fundação Toyota do Brasil e da organização não-governamental SOS
Mata Atlântica.
Do resgate à reintrodução
Resgatado
após encalhe na praia de Diogo Lopes, no Rio Grande do Norte, o animal passou
por uma fase de reabilitação nas piscinas do Programa Peixe-Boi, na Ilha de
Itamaracá (PE). Cinco meses atrás, foi transferido para um cativeiro de 1000 m²
em ambiente natural, já na APA Costa dos Corais. Depois de cumprir um protocolo
que envolve peso mínimo e realização de exames, Diogo foi considerado apto para
voltar à natureza.···.
Sob o
comando da veterinária Fernanda Attademo, cerca de 30 pessoas atuaram na equipe
de soltura do peixe-boi, que primeiro precisou ser retirado da água para
colocação do equipamento de GPS e, na sequência, foi conduzido para fora do
cativeiro. O aparelho de localização por satélite ajuda a entender os
deslocamentos do animal e o uso do habitat, auxiliando o monitoramento
pós-soltura, mais intenso nos primeiros três meses. De acordo com a
veterinária, esse acompanhamento permite gerar dados que subsidiam a indicação
das áreas consideradas importantes para a conservação do peixe-boi.
As
pessoas envolvidas nesse trabalho estão contribuindo para definir o futuro de
uma espécie”, ressalta Fernanda. Para o chefe da APA Costa dos Corais, Iran
Normande, a sensação é de dever cumprido: “Uma etapa longa foi superada. O
momento da devolução do animal à natureza é muito simbólico e nos inspira a
continuar trabalhando”. Segundo Iran, esta é a 44ª soltura desde 1994 e a
segunda este ano. “Lua, a primeira peixe-boi a ser reintroduzida, está hoje com
25 anos, bem de saúde e reproduzindo”, comemora. O objetivo dessas
reintroduções, ainda de acordo com o chefe da APA, é reconectar as populações
do animal que atualmente encontram-se isoladas, aumentando o número de
indivíduos e ampliando a variabilidade genética da espécie.
Treinamento
O ICMBio
aproveitou o dia da devolução de Diogo para realizar um treinamento com a
equipe da Reserva Extrativista (Resex) Marinha de Cururupu – unidade de
conservação localizada no estado do Maranhão – sobre manejo, soltura e
acompanhamento do peixe-boi. O objetivo é iniciar o monitoramento participativo
na reserva para avaliar a população da espécie em território maranhense, ainda
bastante desconhecida. “Isso permitirá uma conexão entre as ações do ICMBio
relacionadas ao peixe-boi nas diversas áreas de ocorrência e entre as unidades
que trabalham com a espécie”, pontua Laura Reis, coordenadora de Pesquisa e
Monitoramento da Resex de Cururupu.
Sobre a espécie
Animal
dócil e de hábitos solitários, o peixe-boi marinho (Trichechus manatus) é um mamífero herbívoro que se alimenta de
capim-agulha e folhas do mangue, ingerindo de 8% a 13% do seu peso diariamente.
O animal pode atingir 600 kg e medir até 4 metros. De acordo com especialistas,
costuma levar de 3 a 4 minutos submerso entre cada respiração, podendo, em
situações extremas, ficar até 20 minutos embaixo d’água.
Com
ocorrência de Alagoas ao Amapá, o peixe-boi teve sua população reduzida
sobretudo devido à caça. “A espécie não tem predador natural. Seu único
predador é o homem”, explica Iran Normande. Hoje, o principal problema já não é
mais a caça, e sim a perda de habitat, pois muitos manguezais vêm sendo usados
para criação de camarões em cativeiro. Sua baixa taxa reprodutiva também
dificulta o repovoamento: a espécie atinge a maturidade sexual somente aos seis
anos de idade (pode viver até os 60), a gestação dura 13 meses e o filhote é
amamentado ao longo dos primeiros dois anos de vida.
As ações do Programa Peixe-Boi vêm contribuindo para melhorar esse quadro: na
última Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, divulgada
em 2014, o peixe-boi deixou a categoria “Criticamente em Perigo” e passou a ser
apontado como “Em Perigo”. A estimativa populacional também deu um salto, de
500 para 1000 indivíduos. Além disso, a quantidade de filhotes que tem sido
avistada nos últimos anos é mais um importante indicativo de que os peixes-bois
estão reproduzindo e aumentando sua população.
Turismo de base comunitária: peixe-boi
promove geração de renda
A partir do trabalho de sensibilização dos moradores da APA Costa dos Corais
para a conservação do peixe-boi, houve o fomento ao turismo de observação da
espécie, que se tornou um ativo econômico da região. Segundo informações da
Associação Peixe-Boi, responsável pelo turismo de base comunitária no município
alagoano de Porto de Pedras, a atividade gera empregos diretos e melhoria na
renda para cerca de 70 famílias, sem contar os ganhos indiretos, a exemplo do
artesanato relacionado ao peixe-boi.
A associação organiza passeios de jangada pelo rio Tatuamunha, onde diariamente
até 70 visitantes podem observar os animais em seu ambiente natural. “A maioria
não tem conhecimento prévio sobre a espécie e, muitas vezes, nem sabem que
existe um animal como esse no Brasil. As pessoas saem do passeio encantadas com
o que viram”, destaca Flávia Rêgo, presidente da Associação Peixe-Boi.
Nana Brasil(ascomchicomendes@icmbio.gov.br)




