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O goiano da cidade de Pires do Rio
lutava contra dois cânceres – linfomas nas células do manto e na bexiga -, e,
por dois meses, enfrentou as mazelas geradas pela covid-19. Ele foi
hospitalizado no fim de fevereiro no Hospital Alvorada (Asa Sul), mas não
resistiu e faleceu em decorrência de problemas pulmonares. Ele deixa esposa,
três filhos, netos, bisnetos e amigos de longa data.
Orédio estruturou a primeira rede de
autopeças de Brasília (Induspina Autopeças), em 1958, dois anos antes da
inauguração da cidade. O negócio permanece de pé na quadra 514 da Asa Sul. O
empresário, que também era fazendeiro, teve a vida documentada no filme “O
legado de um pioneiro”, lançado em outubro de 2019. Na estreia, o pioneiro
recebeu o Título de Cidadão Honorário de Brasília, concedido pela Câmara
Legislativa do DF (CLDF), proposto pelo deputado Daniel Donizet (PSDB-DF). O
filho e jornalista Flávio Resende foi um dos idealizadores, produtores e
roteiristas do longa.
Vindo de Anápolis
(GO) em 1957, Orédio veio a Brasília já com o objetivo de se tornar gerente do
negócio que este ano completa 63 anos. A primeira loja foi aberta na Cidade
Livre como braço do setor de autopeças do Grupo Pina, organização goiana em que
trabalhava desde os 17 anos e onde começou como faxineiro. Em 1964, tornou-se
sócio da empresa. Em 2001, o comerciante foi reconhecido e agraciado na
primeira edição do projeto Mercador Candango, realizado pela Fecomércio-DF.
“Um grande mestre”
A
esposa, Ana Rosa Silveira, 67, o conheceu na loja de autopeças quando começou a
trabalhar na empresa, em 1973. Orédio havia se separado do primeiro casamento e
os dois começaram a desenvolver um relacionamento naquele ano – ela com 18 e
ele com 32. “Para mim ele foi um grande mestre. Me ensinou tudo o que eu sei.
Meus pais me educaram bem, mas quem me lapidou foi ele. Não conheci ninguém
como ele. Um homem íntegro, honesto e com tantos outros adjetivos. Não digo
isso porque é meu marido, mas porque todos também o reconhecem assim”, afirmou.
Segundo ela, Orédio era um homem
simples e humilde, sem apego patrimonial ou financeiro, apesar das conquistas
ao longo da carreira como empresário. “Ele gostava mesmo era de ficar na
fazenda. Ele tinha muita bondade e gostava de ajudar os outros. Dinheiro não
tinha valor para ele, não fazia questão”, comentou.
Dos 47 anos juntos, Ana se dedicou,
nos últimos sete, a cuidar exclusivamente do marido, uma vez que o câncer
contraído (linfomas nas células do manto) é muito raro. Ele se voluntariou,
portanto, aos estudos da doença por profissionais de saúde de Goiânia, para
onde se deslocavam frequentemente antes da pandemia da covid-19 a fim de ajudar
em descobertas para o tratamento do câncer. “No início do diagnóstico, os
médicos davam apenas dois anos de vida para ele. Ele viveu sete – e só não
viveu mais por conta dessa doença maldita. Isso prova que os remédios estavam
fazendo efeito”, contou.
“Nesses últimos sete anos, deixei de
viver a minha vida para viver a dele. O que acalenta meu coração é saber que eu
fiz tudo o que podia enquanto ele estava vivo, cuidando dele a todo momento. E
ele era muito grato. Sempre me dizia que só estava vivo por minha causa. Então
eu vou chorar de saudade, não por coisas que eu deixei de fazer [por ele]. Ele
me dizia que eu era o maior achado da vida dele”, compartilhou.
“É um homem que eu não vou esquecer
jamais na minha vida. Ele me ensinou tudo o que eu sei”, disse ainda. Agora, os
negócios serão tocados pela matriarca, mas ela já pensa em se aposentar. Essa
ideia, porém, nunca passou pela cabeça de Orédio. Mesmo hospitalizado, o
pioneiro perguntava a Ana como estava o movimento na loja. Chegava a ir à empresa
apenas para ficar dentro do carro vendo o vai e vem dos clientes. “O nome dele
era trabalho. É o filho mais velho dele”, finalizou a esposa.
Para o filho, Flávio Resende, o legado
do pai foi de um homem íntegro, que ensinou e viveu de acordo com o que falava,
sempre honrando com suas palavras e compromissos. “São alguns valores que estão
em desuso hoje em dia. Aquilo de que o que se fala é suficiente – não há
necessidade de assinar nada. Sua palavra por si só basta. O avô dele ensinou
para o pai dele, que ensinou para ele e ele ensinou para a gente [filhos]”,
contou.
“Ele era um homem simples, uma pessoa
de origem rural. Então ele também nos ensinou esses valores do contato com a
terra, do cultivo, do adubar, do regar. Isso aplicando na vida também. No
sentido de semear, adubar e regar projetos. Talvez o mais difícil seja a
perseverança no cuidado diário, mas ele fez. Isso fica de legado não só para
nós filhos, mas também para os amigos e outros familiares”, disse.
O sócio, Sebastião Feliciano da Silva,
80, o conhece desde os 12 anos de idade, quando também começou a trabalhar na
Induspina, ainda em Anápolis. Para ele, o amigo de longa data era “uma pessoa
sem igual”. “Dava um tratamento especial e respeitoso para todas as pessoas.
Sempre fez o que estava ao alcance dele para te ajudar nas suas dificuldades e
para te dar o apoio”, contou.
“[A morte dele] Deixa a gente muito
triste, mas é a vida. Uma hora todos vamos seguir com seus caminhos. Ele deixa
um legado de competência. Sempre foi um empreendedor – estava sempre à frente
com seus pensamentos. Foi um pioneiro agraciado”, completou o amigo Sebastião.
“Deixo meus sentimentos. Ele descansou. A vida é um dom de Deus e temos que
continuar.”
(J.Br)
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