O Distrito Federal
vem passando por extremos climáticos neste ano: recorde de calor, umidade
relativa do ar cada vez mais baixa e, em seguida, tempestades avassaladoras. O
Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) aponta que não é possível prever
alterações tão bruscas no tempo, principalmente no período de mudança de
estação. Por isso, as transições climáticas pegam todos de surpresa. Ao longo
desta semana, aprofundamos o debate acerca dos fenômenos que têm impactado
diretamente no nível dos reservatórios e provocam a crise hídrica.
As chuvas que caíram na última
quinzena não foram suficientes para amenizar a escassez de água na capital, que
se agravou após uma estiagem de mais de 120 dias. Os reservatórios seguem em
baixa. Ontem, na última medição feita pela Agência Reguladora de Águas, Energia
e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), a barragem do Descoberto
estava com apenas 5,8% do volume útil. Já o reservatório de Santa Maria operava
com 22,3%.
Neste ano, choveu 57% do
que era esperado até agora, de um total de 1.540,6 ml. A chefe da Unidade Estratégica de Clima da
Secretaria de Meio Ambiente, Leila Soraya, confirma que as chuvas que caíram
até agora não conseguem encher os reservatórios. “Pelo contrário, são
precipitações que causam desastres e não reservam água. Ela vem concentrada e
intensa”, explica.
Além disso, ela explica
por que as chuvas serão insuficientes. “Esse período de chuva não vai conseguir
aumentar o volume porque não só a água da superfície está baixa, mas os lençóis
freáticos, o subterrâneo, também está com um nível baixo”, aponta.
Para complicar ainda
mais a situação das barragens, Leila completa que em janeiro a estiagem volta
novamente. “Além de fecharmos o ano com chuvas abaixo do que era previsto, vem
o verão e retorna a seca no Distrito Federal”, reitera.
As chuvas não são as
únicas culpadas pelo baixo volume dos reservatórios. Ainda de acordo com Leila,
é preciso analisar dois tipos de fatores: os climáticos e não climáticos. “Nós
estamos saindo de três anos seguidos de seca severa. Leva um tempo para que os
reservatórios comecem a minar e produzir água. Precisaria de muita chuva, e
essa chuva não vai vir. Então, vamos continuar no déficit”, levanta.
Diversos fatores não
climáticos contribuem para as mudanças: “Aumento da população, a própria
gestão, a impermeabilização do solo, o investimento público em projetos que não
produzem água e aumentam a nossa vulnerabilidade à seca, expansão imobiliária e
rodoviária”, detalha Leila Soraya, da Secretaria de Meio Ambiente.
“Quando o gestor tem um
problema que acha que pode provocar um colapso na economia, ele incentiva a
criação de empreendimentos. Se ele toma essa decisão sem olhar para os fatores
climáticos, aumenta ainda mais as chances de os extremos se repetirem”,
completa.
O meteorologista Mamedes
Luiz Melo, do Inmet, observa que já foi iniciada a época de transição de
estação. “Estamos caminhando para o verão. Então, quando as precipitações dão
uma trégua de três a quatro dias, a próxima chuva vai encontrar um ambiente
quente, úmido, e é comum vir mais forte”, alerta.
Questionado se é
possível prever mudanças climáticas tão bruscas, Mamedes afirmou que o modelo
de previsão é um pouco falho. “Leva um certo tempo para detectar”, aponta.
O meteorologista
ressalta que o País como um todo vem sofrendo com as mudanças climáticas. “Para
saber como vai ser o ano que vem, a longo prazo, é preciso levar em
consideração muitos fatores, desde a atmosfera até os oceanos, para ver se
existe algum fenômeno em grande escala capaz de modificar”, explica. “O DF já
vem sofrendo com a diminuição das chuvas desde o El Niño de 2014 e 2015”,
completa.
No fim de outubro, a Companhia de
Saneamento do DF (Caesb) entregou um plano de racionamento de água de 48 horas
(ante as atuais 24 horas), mas ainda não há previsão para o início do aumento
do rodízio. A Caesb alega que o plano já foi aprovado, mas os detalhes só serão
divulgados caso ele seja aplicado. “A companhia continua avaliando o volume
útil dos reservatórios, a chegada das chuvas e o consumo pela população”,
aponta, em nota.
Para
os próximos dias, a previsão é de mais chuva na capital até o fim de semana. O
céu ficará nublado a encoberto com pancadas em áreas isoladas. A temperatura
vai variar entre 17 ºC a 24 ºC, e a umidade relativa do ar entre 95% e 50%.
(J.Br/Foto: John Stan/redação JAL)

