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Os efeitos imediatos da decisão da
Suprema Corte, por 8 a 3, indicam para uma espécie de antecipação da campanha
presidencial, com chances de reedição da polarização de 2018, entre petismo e
bolsonarismo. O duelo entre Lula e Bolsonaro cria ainda uma pressão sobre o
centro político, que se articula na tentativa de definir um nome como representante
da chamada terceira via. A retomada dos direitos políticos do ex-presidente
também tem potencial de estreitar a raia para a corrida eleitoral, diminuindo o
número de candidatos na campanha presidencial.
Grande parte da pressão que a
potencial candidatura de Lula em 2022 joga sobre os demais nomes da disputa vem
do fato de que ele, a um ano e meio do pleito, aparece entre os líderes das
pesquisas. Ou seja, o peso da presença do ex-presidente na próxima eleição pode
ser medido em números.
Pesquisa da XP/Ipespe, divulgada em
abril pelo Estadão, mostra Lula e Bolsonaro tecnicamente empatados. No entanto,
a simulação demonstra que o petista desponta numericamente à frente do atual
presidente, com 29% das intenções de voto, ante 28% de Bolsonaro.
Em levantamento anterior realizado
pelo instituto, Lula contava com 25% das intenções de voto, contra 27% de
Bolsonaro. Ainda segundo a pesquisa, nomes como Sérgio Moro e Ciro Gomes (PDT)
contam cada um com 9% das intenções de voto.
Na avaliação da doutora em Ciência
Política Carolina Botelho, que é pesquisadora no SCNLab/Mackenzie e
Doxa/Iesp/UERJ, a vantagem de Lula apontada nas pesquisas pode ser explicada
pela rejeição ao governo de Bolsonaro e pelo afastamento temporal dos erros
cometidos nos governos do petista. “Passa pela memória das coisas ruins do
governo Lula serem enterradas pelas decisões do STF sobre a Lava Jato e porque
a população não tem o Lula como presidente há muitos anos. Em contraponto, tem
Bolsonaro sendo omisso diante da pandemia e o aumento do desemprego, por
exemplo.”
O dado apontado na pesquisa, de que a
eleição pode se concentrar em torno dos dois nomes, é reforçado pela opinião do
cientista político José Álvaro Moisés, de que assim como foi no pleito de 2018,
a próxima eleição presidencial deve girar em torno de dois polos: Lula e
Bolsonaro.
“Bolsonaro e Lula aparecem como polos
contrapostos em lutam pelo poder. A novidade, agora, é que em face da tragédia
humanitária associada com o desempenho de Bolsonaro diante do coronavírus, a
métrica da polarização se volta para a inevitável comparação de virtudes e
vícios dos dois governos e, nesse sentido, apesar dos processos de Lula, o
cenário de mais de 350 mil vítimas da covid-19 não deixa Bolsonaro em posição
confortável”, observou o professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da
Universidade de São Paulo (USP) em análise publicada no Estadão.
O vácuo de liderança deixado por
Bolsonaro na condução da pandemia é justamente o espaço que Lula busca ocupar
neste momento. Em entrevista na última quinta-feira, 15, o petista afirmou que
não quer “discutir as eleições em 2021”. Segundo disse — em tom de campanha —,
o momento é de “discutir a vacina para o povo brasileiro”, “auxílio emergencial
para os milhões de brasileiros que estão passando fome”, “política de crédito
para os pequenos e médios empresários” e “política de investimento em setores
públicos para reativar a economia brasileira”. O discurso contrasta
frontalmente com as posições de Bolsonaro na condução da pandemia.
Para o cientista político e membro do
Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da Universidade Estadual do
Rio de Janeiro (UERJ), Fernando Guarnieri, Lula acerta ao apostar em um
discurso “neutro”, mas é preciso mais do que isso para tentar fugir da
polarização em busca de uma frente ampla.
“É um discurso ideologicamente neutro.
Ele só está falando de uma competência de gestão de crise, de condução da
Presidência da República. Isso consegue chegar a mais gente. Parte do mercado
aplaudiu, o pessoal mais de centro tem gostado dos discursos dele. Mas se isso
é suficiente para organizar uma frente ampla, acho que não basta. Precisa ainda
do compromisso com a economia, toda a crítica que a centro-direita fez aos
governos do PT”, cita.
Com isso, é praticamente inevitável
que a corrida eleitoral do ano que vem seja indiretamente antecipada pelos dois
principais nomes da disputa. “Isso aí é fala de candidato. O Lula está fazendo
campanha e ele está sendo super candidato quando fala isso. E a estratégia dele
é certeira porque mostra que Bolsonaro é omisso e que as pessoas estão morrendo
por isso. Então ele traz o debate para a pandemia porque essa é uma agenda mais
do que eleitoral, é uma agenda de estadista”, avalia Botelho.
Exemplo claro dessa antecipação é o
fato de que, horas depois da decisão do STF, o presidente Bolsonaro usou sua
live semanal para discursar sobre a provável presença de Lula no pleito do
próximo ano.
Negando se tratar de um início
antecipado de campanha, Bolsonaro declarou que só aceitaria a vitória do
petista se os votos forem auditados. “Não está começando aqui a campanha para
22, mas, pela decisão do Supremo hoje, Lula é candidato”, iniciou o chefe do
Planalto. “Se Lula voltar pelo voto direto, voto auditável, tudo bem. Agora,
veja qual vai ser o futuro do Brasil com o tipo de gente que vai trazer para
dentro da Presidência”, acrescentou.
Ou quando, no mês passado, após um
discurso forte de Lula sobre a necessidade de enfrentamento da pandemia,
Bolsonaro ter aparecido de máscara. Na opinião dos analistas, com Lula apto a
ser candidato, as ações do presidente serão reativas aos discursos e ações do
petista.
Os exemplos acima ilustram o que dizem
os analistas: a postura de Bolsonaro, com Lula no páreo, tende a ser reativa às
ações e discursos do petista. “Vai ser uma campanha reativa a Lula, com
radicalização. E ele vai resgatar coisas antigas relacionadas à polarização”,
acredita a professora da UFRJ.
Já para Guarnieri, “se Bolsonaro tiver
calculando que Lula na competição o favorece porque ele se apresenta como
antipetista, ele está equivocado”, avalia. Isso porque, as recentes decisões do
STF contra a Lava Jato enfraquecem o discurso antipetista, apontado como
principal responsável pela eleição de Bolsonaro em 2018.
A saída para Bolsonaro poderia ser a
de se voltar ao centro e tentar ultrapassar Lula por meio da conquista dos
votos moderados. Guarnieri, no entanto, avalia que esse não seria um discurso
fácil a ser comprado por esse eleitorado. “É difícil, agora, para Bolsonaro
tentar passar por moderado e tentar capitanear os votos do centro como Lula
está fazendo, porque ele elevou o tom durante muito tempo”, diz.
Na avaliação de Álvaro Moisés, a
eventual candidatura de Lula prejudica o “pluralismo político” na construção da
próxima eleição. “A tendência de exacerbação da polarização limita
drasticamente as possibilidades de surgimento de uma alternativa que, longe dos
dois polos, ofereça aos eleitores uma opção mais moderada, calcada na defesa da
democracia e em propostas de prioridade à saúde, criação de empregos e o
enfrentamento das desigualdades abismais da sociedade.”
Automaticamente, o centro sai
prejudicado. Com ao menos meia dúzia de nomes possíveis de carregar uma
candidatura em busca do equilíbrio e sem uma plataforma a ser defendida além da
defesa da democracia, os analistas apontam que o centro “esmagado” e “com a
faca no pescoço” a partir da decisão do STF.
Segundo Guarnieri, a volta de Lula ao
jogo eleitoral obriga os demais agentes, principalmente os de centro, a
recalcular a rota. “O centro, pelas pesquisas, está esmagado. A disputa está
polarizada entre Lula e Bolsonaro. Os candidatos de centro precisam olhar se é
possível fazer campanha com o discurso que apele para a não-polarização. Esse é
o cálculo que deve ser feito agora. Por exemplo, o Luciano Huck vai entrar em
uma campanha que é super desgastante para a imagem de qualquer um com o risco
de ser esmagado e chegar ao final com um desempenho pífio? A entrada do Lula
leva a esse tipo de cálculo. Aumenta, para esse pessoal de Centro, a
incerteza”, aponta.
Para o cientista político Humberto
Dantas, a existência de muitas candidaturas ditas de centro indica um vazio. “O
centro está com a faca no pescoço. O grande desafio é que não é um centro.
Existem 20 agentes se arrogando de que é alternativa de centro ou de fora da
política para representar o equilíbrio que, em tese, viria do centro”, diz.
(O Estado de S. Paulo) www.jornalaguaslindas.com.br
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