Portas
gradeadas, retratos de presidiários, recortes de jornais e revistas compõem a
decoração nada usual de uma das suítes do Motel Altana
A
possibilidade de virar alvo da Lava Jato tira
o sono de quase todos os políticos e de muitos empresários brasileiros. A cada
nova fase deflagrada por promotores de Justiça e pela Polícia Federal, sobe
aquele arrepio na espinha dos malfeitores. Mas há quem dê suspiros de prazer
com a possibilidade de estar atrás das grades. E esse fetiche tem levado muitos
curiosos até a “cela” do Motel Altana, em Sobradinho. Lá, uma das suítes foi
cuidadosamente montada para simular uma prisão. O tema, a Lava Jato.
A decoração foge a todos os
padrões de temas românticos e começa já pela garagem. A suíte número 8 se
destaca na primeira fileira de quartos do motel. Antes mesmo de estacionar, o
cliente avista o mural sugestivo. Uma das paredes é tomada de cima a baixo com
um grafite que estampa a figura de bandidos.
O desenho mostra cinco homens
dentro de uma cela, dois deles com uniforme de presidiário. Em um dos casos, o
malandro ostenta o número 157 no peito. No Código Penal, é o artigo que
tipifica o crime de roubo. Na parede oposta, tem a pintura de dois homens que
aparentemente estão em Paris. São cenas explícitas de sacanagem. Eles se roubam
enquanto se abraçam. Grades de ferro parecidas às que isolam os detentos em
presídios foram adaptadas a uma porta e janela do quarto Lava Jato.
A
primeira imagem de que a maior operação de combate à corrupção inspirou a suíte
temática está logo na entrada. Três paredes de pé direito alto reúnem recortes
de jornais e revistas com uma série de reportagens das mais variadas fases da
Lava Jato. Lá estão alguns dos alvos da investigação. Difícil acreditar como
alguém pode se manter animado mirando personagens como Nestor Cerveró, Eduardo
Cunha, Lula, Dilma, Delcídio do Amaral, Fernando Baiano. Mas o fato é que todos
eles têm sido testemunhas de momentos tórridos.
Para dar uma equilibrada entre
referências de mocinhos e bandidos, as colagens também incluem o juiz federal
Sérgio Moro e o coordenador da força-tarefa da operação, o procurador Deltan
Dallagnol. Ao subir as escadas de acesso para o quarto, é preciso passar por
paredes que simulam cimento batido, também com grades coladas nas laterais.
Tudo bem no clima de crime e castigo. “O quarto em si é uma mistura do
luxo e do submundo de uma prisão. Em uma das laterais da suíte, há um
papel de parede com a imagem da imponente Torre Eiffel iluminada. Mas não é
possível tocá-la. O motivo são as grades. Assim como nas prisões, impedem o
contato com o mundo. Muitos espelhos, globo de luz e luminárias de cristal
estão em volta da cama. No pé dela, inclusive, há uma grade em formato de L
presa entre o chão e o teto”.
A Cela do Altana tem regalias que
os presídios não comportam. Entre elas, banheira de hidromassagem, sauna e
vista panorâmica de Brasília. Pelo janelão de vidro, é possível admirar a
capital do alto, incluindo parte da Esplanada dos Ministérios, onde está o
Congresso Nacional, um dos principais redutos de investigados. Também dá para
tomar um saboroso vinho chileno. A fantasia de estar atrás das grades
custa entre R$ 129,50 e R$ 156,50, a cada duas horas.
Do jeito que as coisas se
encaminham, muita gente vai conhecer, sim, a cela da Lava Jato. Mas não a dos
prazeres. A das punições mesmo. (Kelly Almeida Colaborou Leilane Menezes/Metrópoles)
