Após denúncia de assédio José Mayer é suspenso da Globo

A
polêmica em torno da acusação de assédio de José Mayer a uma das figurinistas
da Rede Globo, Susllem Meneguzzi Tonani, ainda está rendendo o que falar. Nesta
terça-feira (4/4), o jornalista da emissora, Evaristo Costa, leu na edição do
Jornal Hoje, uma carta aberta do ator, na qual Mayer reconhece o erro. Antes
dessa manifestação, a Globo já havia se pronunciado, na segunda-feira (3/4),
suspendendo o artista das produções da emissora. 

Segundo a
Globo, ele foi retirado de “O Sétimo Guardião”, próxima novela de
Aguinaldo Silva, que entra na grade no horário das nove, em 2018.

O caso veio à tona depois que a figurinista Susllem contou os episódios de
assédio à Folha de São Paulo: “A primeira brincadeira de José Mayer
Drummond comigo foi há oito meses. Ele era protagonista da primeira novela em
que eu trabalhava como figurinista assistente. E essa história de violência se
iniciou com o simples: ‘como você é bonita'”, relembra. 

Segundo
ela, o assédio foi ficando mais intenso e menos discreto. De acordo com a
figurinista, o departamento pessoal da empresa foi procurado, assim como a
ouvidoria. “Acusei todas as pessoas, todas as instâncias, contei sobre o
assédio moral e sexual que há meses eu vinha sofrendo […]”. 

O lema –
‘Mexeu com uma, mexeu com todas’ – e a hashtag #chegadeassédio tomaram conta do
Instagram nesta terça (5/4). A frase aparece em um fundo branco e camisetas em
posts de atrizes e funcionários globais numa campanha contra o assédio no
trabalho.
Veja o depoimento de Susllem Meneguzzi
Tonani na íntegra:

Eu, Susllem Meneguzzi Tonani, fui assediada por
José Mayer Drumond. Tenho 28 anos, sou uma mulher branca, bonita, alta. Há
cinco anos vim morar no Rio de Janeiro, em busca do meu sonho: ser figurinista.

Qual mulher nunca levou uma cantada? Qual mulher nunca
foi oprimida a rotular a violência do assédio como “brincadeira”? A primeira
“brincadeira” de José Mayer Drumond comigo foi há 8 meses. Ele era protagonista
da primeira novela em que eu trabalhava como figurinista assistente. E essa
história de violência se iniciou com o simples: “como você é bonita”.
Trabalhando de segunda a sábado, lidar com José Mayer era rotineiro. E com ele
vinham seus “elogios”. Do “como você se veste bem”, logo eu estava ouvindo:
“como a sua cintura é fina”, “fico olhando a sua bundinha e imaginando seu
peitinho”, “você nunca vai dar para mim?”.

Quantas vezes tivemos e teremos que nos sentir
despidas pelo olhar de um homem, e ainda assim – ou por isso mesmo – sentir
medo de gritar e parecer loucas? Quantas vezes teremos que ouvir, inclusive de
outras mulheres: “ai que exagero! Foi só uma piada”. Quantas vezes vamos deixar
passar, constrangidas e enojadas, essas ações machistas, elitistas, sexistas e
maldosas?

Foram meses envergonhada, sem graça, de sorrisos
encabulados. Disse a ele, com palavras exatas e claras, que não queria, que ele
não podia me tocar, que se ele me encostasse a mão eu iria ao RH. Foram meses
saindo de perto. Uma vez lhe disse: “você é mais velho que o meu pai. Você tem
uma filha da minha idade. Você gostaria que alguém tratasse assim a sua filha?”

A opressão é aquela que nos engana e naturaliza o
absurdo. Transforma tudo em aceitável, em tolerável, em normal. A vaidade é
aquela que faz o outro crer na falta de limite, no estrelato, no poder e na
impunidade. Quantas vezes teremos que pedir para não sermos sexualizadas em
nosso local de trabalho? Até quando teremos que ir às ruas, ao departamento de
RH ou à ouvidoria pedir respeito?

Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa,
na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que
fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele
colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo.
Elas? Elas, que poderiam estar no meu lugar, não ficaram constrangidas.
Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada,
ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento
de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade.

Mas segui na engrenagem, no mecanismo subserviente.
Nos próximos dias, fui trabalhar rezando para não encontrá-lo. Tentando driblar
sua presença para poder seguir. O trabalho dos meus sonhos tinha virado um
pesadelo. E para me segurar eu imaginava que, depois da mão na buceta, nada de
pior poderia acontecer. Aquilo já era de longe a coisa mais distante da
sanidade que eu tinha vivido.

Até que nos vimos, ele e eu, num set de filmagem
com 30 pessoas. Ele no centro, sob os refletores, no cenário, câmeras apontadas
para si, prestes a dizer seu texto de protagonista. Neste momento, sem medo,
ameaçou me tocar novamente se eu continuasse a não falar com ele. E eu não
silenciei.

“VACA”, ele gritou. Para quem quisesse ouvir. Não
teve medo. E por que teria, mesmo?

Chega. Acusei o santo, o milagre e a igreja.
Procurei quem me colocou ali. Fui ao RH. Liguei para a ouvidoria. Fui ao
departamento que cuida dos atores. Acessei todas as pessoas, todas as
instâncias, contei sobre o assédio moral e sexual que há meses eu vinha
sofrendo. Contei que tudo escalou e eu não conseguia encontrar mais motivos,
forças para estar ali. A empresa reconheceu a gravidade do acontecimento e
prometeu tomar as medidas necessárias. Me pergunto: quais serão as medidas? Que
lei fará justiça e irá reger a punição? Que me protegerá e como?

Sinto no peito uma culpa imensa por não ter tomado
medidas sérias e árduas antes, sinto um arrependimento violento por ter me
calado, me odeio por todas as vezes em que, constrangida, lidei com o assédio
com um sorriso amarelo. E, principalmente, me sinto oprimida por não ter
gritado só porque estava em meu local de trabalho. Dá medo, sabia? Porque a
gente acha que o ator renomado, 30 e tantos papéis, garanhão da ficção com
contrato assinado, vai seguir impassível, porque assim lhe permitem, produto de
ouro, prata da casa. E eu, engrenagem, mulher, paga por obra, sou quem leva a
fama de oportunista. E se acharem que eu dei mole? Será que vão me contratar
outra vez?

Tenho de repetir o mantra: a culpa não foi minha. A
culpa nunca é da vítima. E me sentiria eternamente culpada se não falasse.
Precisamos falar. Precisamos mudar a engrenagem.

Não quero mais ser encurralada, não quero mais me
sentir inferior, não quero me sentir mais bicho e muito menos uma “vaca”. Não
quero ser invisível se não estiver atendendo aos desejos de um homem.

Falo em meu nome e acuso o nome dele para que fique
claro, que não haja dúvidas. Para que não seja mais fofoca. Que entendam que é
abusivo, é antigo, não é brincadeira, é coronelismo, é machismo, é errado. É
crime. Entendam que não irei me calar e me afastar por medo. Digo isso a ele e
a todos e todas que, como ele, homem ou mulher, pensem diferente. Que entendam
que não passarão. E o que o meu assédio não vai ser embrulho de peixe. Vai é
embrulhar o estômago de todos vocês por muito, muito tempo.

Leia a carta do ator José Mayer, na íntegra:

“Carta aberta aos meus colegas e a todos, mas
principalmente aos que agem e pensam como eu agi e pensava:Eu errei. Errei no
que fiz, no que falei, e no que pensava. A atitude correta é pedir desculpas.
Mas isso só não basta. É preciso um reconhecimento público que faço agora.
Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que
minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com
que devo tratar minhas colegas.

Sou responsável pelo que faço. Tenho amigas, tenho
mulher e filha, e asseguro que de forma alguma tenho a intenção de tratar
qualquer mulher com desrespeito; não me sinto superior a ninguém, nao sou.
Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que
atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras
ou piadas. Não podem. Não são. Aprendi nos últimos dias o que levei 60 anos sem
aprender. O mundo mudou. E isso é bom. Eu preciso e quero mudar junto com ele.
Este é o meu exercício. Este é o meu compromisso. Isso é o que eu aprendi.

A única coisa que posso pedir a Susllen, às minhas
colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança.

Espero que este meu reconhecimento público sirva
para alertar a tantas pessoas da mesma geração que eu, aos que pensavam da
mesma forma que eu, aos que agiam da mesma forma que eu, que os leve a refletir
e os incentive também a mudar. Eu estou vivendo a dolorosa necessidade desta
mudança. Dolorosa, mas necessária.

O que posso assegurar é que o José Mayer, homem, ator, pai, filho,
marido, colega que surge hoje é, sem dúvida, muito melhor.

(CB)

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