Agora em casa, mãe de bebê sequestrado no Hran espera que criminosa continue presa

foto: Breno Esaki

Escondido na Chácara Santa Luzia,
na Estrutural, o barraco de madeira construído há cerca de dois anos guarda um
turbilhão de histórias acumuladas em poucas horas. São apenas dois cômodos
separados por um pano e mobiliados com produtos colhidos “com sorte” no lixão.
Ali, onde a cama é rigorosamente arrumada, dormiram, pela primeira vez, Sara,
Jhony e o bebê, que foi raptado da maternidade e recebeu o nome do pai. Pela
manhã, a família ouviu com alívio a notícia de que a sequestradora, que causou
tanta dor, permanecerá presa.

Na primeira manhã em casa, Jhony
Junior intercalava mamadas, dormidas e olhares de alerta e de curiosidade. No
futuro, segundo a mãe, ele saberá exatamente o que aconteceu nos primeiros dias
de vida. Por enquanto, a tranquilidade reina no imóvel simples construído pelo
pai, apesar da entrada e saída de equipes de reportagem. “Fiquei famosa. Nem
consegui comer”, brincou Sara Maria Alves, 19 anos. Por horas, o menino calmo
não chorou nenhuma vez.

“Agora
está tudo bem, mas o trauma vai ficar. Consegui dormir, mas não saí de perto do
meu filho. Foi desesperador”, lembrou a mãe, que foi ao corredor participar de
um “dia da beleza” promovido pelo Hospital Regional da Asa Norte e se deparou
com a cama vazia. “Eu vi a mulher rondando a maternidade. Ela falou que levaria
dois meninos, mas nunca pensei que roubaria um bebê”, disse a jovem, que
precisou de remédio para dormir e foi segurada por enfermeiras. “Chorei muito,
queria me jogar pela janela. Pensei que a mulher pudesse fazer alguma maldade.”

Em
casa, o pai recebeu a notícia pelo conselheiro tutelar que acompanha a família
há meses. “Foi o fim do mundo. Peguei todo o dinheiro que eu tinha e tomei um
ônibus. Tentei manter a calma, mas assim que cheguei já me levaram a um
psicólogo e policial. Sara chorava muito”, recordou Jhony dos Santos, 20.
“Graças a Deus meu filho apareceu”, comemorou.

Apontada
como sequestradora, a ex-estudante de enfermagem Gesianna de Oliveira Alencar,
25 anos, permanecerá presa. A decisão foi tomada ontem pelo juiz Aragonê Nunes
Fernandes em audiência de custódia no Tribunal de Justiça. Hoje ela será levada
à Penitenciária Feminina, a Colmeia, por tempo indeterminado. Apesar de ser ré
primária, o magistrado entendeu que o caso é de “periculosidade social”, além
de ter declarado identidade falsa para fugir da ação do Estado.

Sara é
reservada e de poucas palavras. Ainda tenta entender e lidar com tudo o que
passou nos últimos dias. “Eu sinto raiva. Muita raiva, e não perdoo. Ela tem
que ficar presa mesmo. Se ficar solta, pode pegar outros bebês”, afirmou ao
saber, pela reportagem, que a mulher que raptou seu filho ficaria presa. O pai
espera por justiça: “Raiva eu não tenho, mas é difícil entender como uma pessoa
pode ter feito isso. Tem que pagar”.

“Sinto
um pouco de pena. Fiquei revoltada com a atitude, revoltada com ela ter conseguido
entrar e sair do hospital com um bebê roubado. Espero que ela peça perdão a
Deus e que ele a perdoe”, complementou Dalvina Maria dos Santos, dona de casa
de 40 anos e mãe de Jhony, o filho caçula.

Até
colocar as mãos no filho, Sara e Jhony não sabiam o sexo do bebê. O pré-natal
não foi realizado como deveria, sem nenhuma ecografia. “Ele não é lindo?”,
dizia a mãe, sorridente. Nada de nervosismo: era felicidade, garantiu.

“Quero que ele tenha uma realidade diferente da nossa. Já cresci no sofrimento,
não quero isso pra ele. Quero conseguir um emprego melhor para sustentar minha
família, terminar de arrumar a casa, dar conforto ao meu filho”, revelou o pai.

Ele
nasceu e cresceu na Estrutural e concluiu o primeiro ano do Ensino Médio. Hoje,
Jhony trabalha com reciclagem. Em dias de sorte, diz que tira até R$ 100. No
fim do mês, porém, o montante não costuma chegar a um salário mínimo. “Dá para
manter gás e o básico da comida. Não tenho medo de trabalhar, só queria ter
oportunidade”, desabafou. Na cozinha improvisada tem um fogão velho, uma
geladeira estragada, um par de panelas e poucos mantimentos.

Sara
quer que o filho seja jogador de futebol. “Quem decide é ele”, garante o pai. O
casal está junto há dois anos, e o rapaz garante que a gravidez foi planejada.
“Planejada por ele”, revelou, aos risos, a mãe, que estudou até a quarta série,
nasceu no Piauí e veio com a tia para Brasília há pouco tempo.

“Sara
era largada, nós a acolhemos e eles começaram um relacionamento”, afirmou a mãe
de Jhony. “Não sei de onde tirei forças, foi coisa de Deus. Enquanto o bebê
estava longe, eu só conseguia pensar se ele estava sendo alimentado, mas sempre
confiei que ele voltaria”, contou.

O
Conselho Tutelar começou a acompanhar a família quando a menina ficou grávida,
a pedido da equipe de saúde da cidade. Na época, a jovem dizia ter 14 anos,
informação contrariada pela identidade. “Agora, o acompanhamento será diferente
para preservar a criação”, informou o conselheiro Djalma Nascimento.

COMO AJUDAR A FAMÍLIA

·        
O Conselho Tutelar da Cidade Estrutural abriu as portas para
recolher doações de roupas, fraldas, alimentos e até dinheiro. Para contribuir,
basta entrar em contato pelo telefone 3465-5161.

(Conteúdo
J.Brs)

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