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A estimativa é feita com dados da
Social Blade, ferramenta que gera estatísticas sobre redes sociais e permite
análises variadas, como sobre comportamento de seguidores, níveis de interação
e previsão de ganhos.
Em um inquérito
paralelo ao do TSE, o dos atos antidemocráticos, do Supremo Tribunal Federal
(STF), a Procuradoria-Geral da República contabilizou US$ 1,1 milhão obtido por
canais bolsonaristas. Esse montante, porém, dizia respeito a alguns canais
distintos dos alcançados pela Corte Eleitoral, menores, e considerava receitas
de junho de 2018 a maio de 2020.
O dinheiro vem de vídeos que exploram
informações falsas ou tiradas do contexto, como no caso da urna eletrônica. Por
supostamente revelar informações “secretas e bombásticas”, atraem o interesse
de milhões de pessoas. Juntos, os 14 canais na mira do TSE somam 10,1 milhões
de seguidores. É quase o triplo dos 3,5 milhões de inscritos no canal oficial
do presidente Jair Bolsonaro no YouTube.
O volume de acesso e de interações, as
propagandas que aparecem nos vídeos e doações espontâneas de internautas se
convertem em dinheiro. O YouTube ainda analisa as determinações do TSE, de modo
que as receitas ainda não estão suspensas. Os ganhos exatos auferidos por cada
um desses youtubers foram solicitados pelo TSE às plataformas, que têm 20 dias
para prestar as informações. Em reunião na Justiça Eleitoral, ontem,
representantes das redes sociais se mostraram dispostos a acolher as ordens e a
colaborar com providências futuras.
O maior canal bolsonarista afetado é o
Folha Política, com 2,5 milhões de inscritos e um ganho que pode se aproximar
de US$ 1,7 milhão por ano, segundo a Social Blade. Na conversão, o valor passa
de R$ 5 milhões. Um dos vídeos destacados no relatório policial que baseou o
despacho do corregedor da Justiça Eleitoral dá uma versão falsa sobre ataques
de hackers ao TSE. Alega que invasores acessaram “o sistema, a nave mãe, o
cérebro, o computador do TSE”.
Nos últimos meses, a urna eletrônica
virou o tema preferido de youtubers bolsonaristas. Com a audiência gerada a
partir das teorias conspiratórias que o presidente sustenta, os youtubers
ganham dinheiro com vídeos que ampliam essas versões falsas ou enganosas.
Alberto Junio da Silva, do canal O
Giro de Notícias, tem 1,2 milhão de inscritos e receita estimada em US$ 92 mil,
conforme a Social Blade. Em um dos vídeos citados no relatório da PF ele afirma
que o “PT teve acesso às urnas” e sugere um conluio do partido com a Justiça
Eleitoral. “Eles (PT) foi o único que tiveram (sic) acesso permitido pelo TSE
(em auditoria). Não é estranho?”, afirma. “Se eles não querem colocar o voto
impresso é porque aí tem.”
Nos vídeos, Silva exibe na tela, em
letras garrafais, o número para que contribuições a ele sejam enviadas via Pix
como apoio ao canal. Portanto, por fora do YouTube. Ele se alterna entre
ataques ao sistema eleitoral e publicidade contra a calvície.
Os mecanismos para doações são uma
preocupação permanente para as autoridades envolvidas no inquérito
administrativo aberto pelo TSE a partir da live de Bolsonaro. Esse tipo de
entrada, avaliam, pode mascarar doação ilegal de campanha eleitoral.
Entre os youtubers afetados, há alguns
com acesso ao Palácio do Planalto. Fernando Lisboa, do Vlog do Lisboa, tem
vídeos gravados na sede do governo, ao lado do presidente, em que ambos fazem
críticas à imprensa. O canal tem 716 mil seguidores e a receita por ano pode
chegar a US$ 169 mil, segundo a Social Blade. “Quanto mais se atacam as
instituições e o sistema eleitoral, mais proveito econômico os envolvidos
obtêm”, disse Salomão.
Emerson Teixeira, o “Professor
Opressor”, também disseminou mentiras sobre as urnas conforme o direcionamento
político de Bolsonaro. “Estamos diante do maior escândalo da República do
Brasil das últimas décadas. O que o Bolsonaro fez ontem na live foi desmascarar
toda essa corja que tem aí no STF e no TSE. A gente tem que brigar para que
essas pessoas, Rosa Weber, Barroso e demais agentes do TSE, sejam presos
imediatamente”, disse.
A estimativa é a de que o canal renda
a ele anualmente até US$ 28 mil, quase R$ 150 mil. O youtuber vem ganhando
relevância. Em março, tinha 61 mil seguidores. Hoje, tem 134 mil.
É esse mercado nebuloso que o TSE busca
combater com uma resolução que está sendo elaborada. Os temas preferidos pelos
youtubers poderiam continuar em debate, conforme as regras das plataformas e as
leis brasileiras, mas não servir para enriquecer quem viu no “segmento” uma
oportunidade de negócio. Para autoridades, “política e ideologia não podem ser
comercializadas”.
Mais do que impor um revés a canais
bolsonaristas na internet, o TSE quer limitar a atuação de “mercenários” no
debate político. Especialistas concordam que a monetização proveniente das
plataformas de redes sociais é uma das mais importantes fontes de financiamento
de campanhas de desinformação contra instituições e adversários políticos.
No entanto, a medida exige uma mudança
de postura das plataformas. Isso porque elas ganham parte dos valores doados
pelas audiências aos produtores de conteúdo. No YouTube, por exemplo, os donos
de canais abrem “superchats”, modalidade em que os inscritos podem fazer
doações de dinheiro. A rede social fica com 30%.
No encontro com as plataformas, também
foi mencionada a ideia da resolução que visa suspender, nas eleições, a
monetização de canais relacionados à política. Uma outra reunião deve ser
marcada nos próximos dias para que o debate seja aprofundado. “Não se trata de
censura, nem mesmo perseguição. A forma mais indicada é retirar o incentivo
financeiro dos canais listados”, afirmou a delegada Denisse Ribeiro, que lidera
as investigações e propôs a suspensão das receitas de canais.
Horas depois da reunião no TSE com
representantes das plataformas, ontem, o presidente da Corte Eleitoral, Luís
Roberto Barroso, fez uma cobrança às empresas. Disse que “dinheiro não é tudo
na vida” e que uma “suposta neutralidade” não pode servir para “proveito
financeiro do mal”.
(Estadão) www.jornalaguaslindas.com.br
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