A partir do Direito Fraterno
Para Aristóteles os amigos são refúgios em casos de
infortúnio e “ajudam os jovens a evitar os erros”, bem como “as pessoas idosas,
amparando-as em suas necessidades e suplementando sua capacidade de ação
reduzida pela senilidade”. Amigos “estimulam as pessoas na plenitude de suas
forças à prática de ações nobilitantes” e junto deles “as pessoas são mais
capazes de pensar e de agir”. Assim, a simples presença de um amigo nos é
agradável, especialmente se estamos na adversidade, e se torna uma salvaguarda
contra as aflições, pois um amigo tende a confrontar-nos tanto com sua presença
quanto com suas palavras se ele é perspicaz, já que ele conhece nosso caráter e
as coisas que não dão prazer ou nos fazem sofrer; mas ver um amigo sofrer com
nosso infortúnio nos causa sofrimento, pois qualquer pessoa evita causar
sofrimento aos amigos.aristóteles86 entende que até uma pessoa extremamente
feliz e autossuficiente precisa de amigos, porque estes “são considerados o
maior dos bens exteriores”, e pelo fato de que as pessoas felizes também
“necessitam de alguém a quem possam fazer bem.”
Chega-se ao ponto mais alto da amizade quando é possível
manter ao mesmo tempo “a diferença entre os singulares e o direito a não ser,
por ela, discriminados”, através, especialmente, da igualdade entre irmãos que
é traduzida pela verdadeira igualdade entre amigos. A igualdade fraterna, por
sua vez, é “ao mesmo tempo, pressuposto da forma jurídica da democracia e fim
político último a ser alcançado através dos princípios normativos.”
A amizade se divide em duas espécies, segundo
Aristóteles88: “as pessoas más serão amigas por prazer ou por interesse,
porquanto se assemelham sob este aspecto”, enquanto que as pessoas boas “são
amigas porque são como são, isto é, por causa de sua bondade”. Aqueles são
amigos acidentalmente ao mesmo tempo em que estes são irrestritamente. “A que
se baseia no prazer é mais parecida com a amizade quando ambas as partes obtêm
reciprocamente os mesmos benefícios”, na medida em que “a amizade por interesse
é para as pessoas mercenárias”.
Ainda, é possível a existência de uma amizade perfeita
quando há pessoas boas e semelhantes em termos de excelência moral; neste caso,
cada uma das pessoas quer bem à outra de maneira idêntica, porque a outra
pessoa é boa e elas são boas em si mesmas. Então as pessoas que querem bem aos
seus amigos por causa deles são amigas no sentido mais amplo, pois querem bem
por causa da própria natureza dos amigos e não por acidente; logo, sua amizade
durará enquanto essas pessoas forem boas e ser bom é uma coisa duradoura. Cada
uma dessas pessoas neste caso é boa irrestritamente e boa em relação ao seu
amigo, pois as pessoas boas são boas irrestritamente e são reciprocamente
úteis.
